Como os meus pais se conheceram numa greve de ônibus
São Paulo, março de 1961. Uma greve de ônibus parou a cidade numa terça-feira chuvosa. A minha mãe, Yuriko, ia a pé até a biblioteca onde trabalhava, na Liberdade. Faltavam três quarteirões quando começou a chover de verdade.
O meu pai, Joaquim, tinha um guarda-chuva. E, sobretudo, tinha a ideia — que até hoje ninguém sabe de onde tirou — de parar na frente de cada mulher que via e oferecê-lo. Já tinha feito isso com seis, sem sucesso.
A minha mãe foi a sétima. Disse que não, obrigada, que não aceitava guarda-chuva de desconhecidos. O meu pai, em vez de ir embora, seguiu-a três quarteirões debaixo da chuva, guarda-chuva erguido sobre os dois, em silêncio, até a porta da biblioteca.
Quando chegaram, ela estava seca. Ele estava encharcado. Disse: «Pronto, obrigado por aceitar.» E foi embora.
Voltou no dia seguinte. E no outro. E no outro.
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A minha avó sempre dizia «o guarda-chuva não era o truque, era a insistência».